Alguns livros começam com uma grande aventura. Cinquenta Tons de Cinza, de E. L. James, começa de uma maneira bem mais simples: uma entrevista que Anastasia Steele nem deveria fazer.
Ana é estudante de Literatura Inglesa e acaba substituindo a amiga Katherine Kavanagh em uma entrevista com Christian Grey, um jovem empresário de 27 anos. O encontro, porém, está longe de ser apenas uma conversa para o jornal universitário. Desde os primeiros momentos, a narrativa deixa claro que existe uma atração entre os dois, ao mesmo tempo em que Christian demonstra uma personalidade reservada, autoritária e extremamente controladora.
O
interessante é que a história não apresenta Christian simplesmente como o homem
rico e bem-sucedido que aparece à primeira vista. Conforme Ana se aproxima
dele, surgem outras camadas: sua necessidade de controle, seus hábitos, suas
preferências e, principalmente, acontecimentos do passado que ajudam a entender
por que ele se tornou uma pessoa tão fechada.
Ana,
por outro lado, está entrando em um universo completamente diferente do seu.
Ela é inexperiente nesse tipo de relacionamento e passa boa parte da história
tentando entender o que Christian espera dela e, ao mesmo tempo, o que ela
própria está disposta a aceitar.
É
justamente aí que o livro ganha seu principal conflito.
Christian
propõe uma relação baseada em regras bastante específicas. O chamado contrato
estabelece obrigações para Ana, mas também prevê limites que precisam ser
discutidos entre os dois. Ela questiona diversas condições, negocia algumas
delas e deixa claro que não pretende simplesmente aceitar tudo sem conversar.
Por
isso, para mim, um dos aspectos mais interessantes da leitura está justamente
nessa negociação constante entre os personagens. O romance não se desenvolve
apenas pela atração física. Existe uma disputa permanente entre aquilo que
Christian quer controlar e aquilo que Ana deseja preservar como escolha
própria.
Outro
ponto que chama atenção é a forma como a narrativa é construída. A história é
contada em primeira pessoa por Ana, então o leitor acompanha diretamente suas
dúvidas, constrangimentos, descobertas e pensamentos sobre Christian. Desde a
primeira entrevista, ela se mostra desconcertada pela presença dele, enquanto
tenta compreender por que aquele homem exerce tamanha influência sobre ela.
A
relação também muda gradualmente. O homem que inicialmente parece apenas
arrogante, frio e intimidante começa a revelar fragilidades e aspectos de sua
história que Ana não conhecia. Ao mesmo tempo, ela vai descobrindo desejos e
limites que também não havia considerado antes.
E é
importante dizer que Cinquenta Tons de Cinza é um romance adulto e
sensual. As cenas sexuais fazem parte significativa da narrativa, mas elas
estão diretamente ligadas ao conflito central da obra: a tentativa de conciliar
uma relação baseada em dominação e regras com sentimentos que começam a ultrapassar
aquilo que estava inicialmente combinado.
O
final deixa essa questão ainda mais evidente. Ana percebe que existe uma
incompatibilidade entre aquilo que ela deseja para o relacionamento e aquilo
que Christian consegue oferecer naquele momento. A separação encerra o primeiro
livro com os dois personagens emocionalmente envolvidos, mas sem terem
conseguido resolver suas diferenças.
É um
livro que pode provocar reações bem diferentes justamente porque coloca seus
personagens diante de questões como desejo, limites, controle, confiança e
escolha. Mais do que simplesmente acompanhar a aproximação entre Ana e
Christian, a leitura permite observar como cada um tenta estabelecer as regras
de uma relação que, desde o início, foge bastante do que os dois conheciam.
Para quem gosta de romances adultos com bastante tensão entre os protagonistas, uma relação cheia de conflitos e personagens que vão sendo revelados aos poucos, Cinquenta Tons de Cinza apresenta uma história que certamente não passa despercebida.
JAMES, E. L.
Cinquenta tons de cinza. 1. ed. São Paulo: Intrínseca, 2012. 480 p. ISBN
978-85-8057-218-6.

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