Alguns livros chamam a atenção pelo assunto. Outros, pela época em que foram escritos. O Martelo das Feiticeiras consegue fazer as duas coisas ao mesmo tempo.
Publicado originalmente com o título Malleus Maleficarum, o livro
é uma obra do final da Idade Média relacionada à perseguição da chamada
bruxaria. Sua leitura pode ser bastante desconfortável em alguns momentos,
principalmente porque encontramos ali acusações, crenças e procedimentos que
hoje nos parecem difíceis de compreender.
E talvez seja justamente por isso que ele seja tão interessante como
documento histórico.
Mais do que procurar no livro histórias de bruxas ou relatos
sobrenaturais, vale a pena lê-lo tentando entender como seus autores enxergavam
o mundo e por que determinadas ideias conseguiram ganhar tanta importância
naquele contexto.
Um livro escrito para combater a “bruxaria”
Heinrich Kramer foi um religioso e inquisidor alemão. Segundo a
apresentação desta edição, ele buscou junto ao papa Inocêncio VIII autorização
para investigar e punir atos de bruxaria na Alemanha. A bula papal mencionada
na obra serviu como uma forma de legitimação para seu trabalho.
James Sprenger também era religioso e inquisidor e costuma aparecer como
coautor de O Martelo das Feiticeiras. A própria edição, porém, apresenta
a informação de que historiadores consideram que sua participação teria sido
mais próxima da colaboração, enquanto seu nome ajudaria a dar um caráter
oficial à publicação.
O livro foi pensado como um guia para reconhecer e combater aquilo que
seus autores consideravam práticas de bruxaria. Curiosamente, ele também
encontrou oposição: a Universidade de Colônia condenou a obra por considerar
que ela incentivava atos antiéticos e ilegais e contrariava a doutrina
católica. Ainda assim, o livro acabou sendo utilizado por cortes seculares.
Esse detalhe da história da obra já mostra que sua trajetória não foi
simples.
O que encontramos dentro do livro?
A obra é dividida em três grandes partes.
Na primeira, os autores procuram construir uma explicação teológica para
a existência da bruxaria. Falam sobre Deus, o Diabo, os demônios, os anjos, o
livre-arbítrio e a possibilidade de acontecimentos sobrenaturais.
É uma parte que ajuda a entender a lógica utilizada pelos autores. Eles
não apresentam suas afirmações simplesmente como histórias fantásticas.
Procuram sustentá-las por meio de argumentos religiosos e referências a
autoridades da Igreja.
Na segunda parte, o assunto fica ainda mais específico. São descritas
diversas práticas que os autores atribuíam às bruxas.
A lista é bastante extensa: doenças, problemas relacionados à reprodução,
dificuldades na vida sexual, prejuízos às plantações e aos animais,
tempestades, raios, enfermidades e até acusações relacionadas às parteiras.
Há passagens em que acontecimentos do cotidiano são interpretados dentro
dessa lógica de bruxaria. É interessante observar isso porque mostra até que
ponto uma determinada crença podia servir como explicação para acontecimentos
que não eram compreendidos de outra maneira.
Quando a crença chega ao tribunal
A terceira parte talvez seja a mais pesada para o leitor atual.
Nela aparecem questões relacionadas aos procedimentos judiciais contra
pessoas acusadas de bruxaria ou heresia. São discutidos assuntos como
testemunhas, investigação, interrogatórios, prisão, defesa, suspeitas, tortura
e condenação.
É nesse momento que percebemos que o livro não ficou apenas no campo das
ideias.
Ele também tratava de como agir diante de alguém que fosse considerado
suspeito.
E isso muda bastante a maneira de enxergar a obra. Não estamos diante
apenas de uma coleção de crenças sobre o sobrenatural. Estamos diante de um
texto que procurava organizar argumentos e procedimentos para lidar com pessoas
acusadas dessas práticas.
Por isso, a leitura da terceira parte pode ser particularmente difícil.
A presença da mulher no livro
Um dos aspectos que mais chama atenção é a presença constante da mulher
nas acusações apresentadas pela obra.
A introdução de Rose Marie Muraro dedica bastante atenção justamente a
essa questão. Sua leitura destaca a relação entre a perseguição às chamadas
feiticeiras e a posição ocupada pelas mulheres dentro daquela sociedade.
Ao longo do livro, encontramos diversas passagens em que a mulher é
apresentada de maneira negativa, associada à fraqueza moral, à tentação e à
possibilidade de ligação com o mal.
A introdução de Muraro ajuda o leitor contemporâneo a olhar para essas
passagens de uma maneira mais ampla, relacionando o conteúdo do Malleus
à história da condição feminina e à perseguição das mulheres.
É uma parte que, para mim, merece ser lida com bastante atenção, porque
muda a maneira como podemos compreender o restante da obra.
O mais interessante talvez esteja justamente no contexto
Ler O Martelo das Feiticeiras hoje pode causar estranhamento. Em
vários momentos, é difícil não pensar em como determinadas situações eram
interpretadas naquela época.
Mas acredito que o maior interesse do livro esteja justamente aí.
Não precisamos ler uma obra histórica como se tivéssemos que concordar
com aquilo que seus autores escreveram. Podemos lê-la para entender uma
determinada mentalidade.
O livro mostra uma sociedade em que religião, medo do sobrenatural,
explicações para doenças e acontecimentos naturais e mecanismos de julgamento
estavam profundamente relacionados.
Isso também nos faz pensar sobre algo que continua interessante nos dias
atuais: a maneira como uma sociedade escolhe explicar aquilo que não
compreende.
Uma leitura difícil, mas importante
Não considero O Martelo das Feiticeiras um livro para ser lido
simplesmente por curiosidade sobre bruxaria.
Ele é muito mais interessante quando encarado como um documento
histórico.
É uma obra que permite observar as crenças de seu tempo, a influência da
religião, a posição social atribuída às mulheres e os mecanismos utilizados
para investigar e punir aqueles que eram considerados inimigos da ordem
estabelecida.
O prefácio de Carlos Byington e a introdução de Rose Marie
Muraro também contribuem para essa leitura, oferecendo ao leitor outras
perspectivas para compreender o texto.
Por isso, se você gosta de livros antigos, história da religião,
Inquisição, estudos sobre a condição feminina ou simplesmente tem curiosidade
por obras que provocaram impacto ao longo do tempo, acredito que vale a pena
conhecer este livro.
Para quem eu indicaria?
Eu indicaria O Martelo das Feiticeiras principalmente para quem
gosta de história e de livros que permitem conhecer a mentalidade de outras
épocas.
É importante, porém, entrar na leitura sabendo que não se trata de um
romance sobre bruxas. O texto tem outra proposta e, em muitos momentos,
apresenta argumentos e descrições bastante difíceis.
Justamente por isso, considero interessante fazer uma leitura crítica,
prestando atenção não apenas ao que os autores dizem, mas também ao contexto em
que essas ideias foram produzidas.
No final, o livro acaba sendo menos uma leitura sobre “bruxas” e muito
mais uma leitura sobre crenças, medo, religião, poder e perseguição.
E talvez seja esse o motivo pelo qual O Martelo das Feiticeiras
continue despertando interesse tantos séculos depois.
Vale a pena conhecer?
Se você gosta de descobrir livros que ajudam a olhar para o passado de
uma maneira diferente, vale a pena conhecer O Martelo das Feiticeiras.
Não é uma leitura leve e certamente não é um livro que passará
despercebido. Algumas páginas incomodam, outras surpreendem e várias fazem o
leitor parar para pensar.
Mas talvez seja justamente esse tipo de leitura que mereça espaço em um
blog literário: aquela que, depois de fecharmos o livro, continua um pouco na
nossa cabeça.
Se você ficou curioso para conhecer uma das obras mais controversas
relacionadas à história da bruxaria e da Inquisição, procure por O Martelo
das Feiticeiras e faça sua própria leitura.
KRAMER, Heinrich; SPRENGER, James. O martelo das feiticeiras.
Tradução de Paulo Fróes; introdução de Rose Marie Muraro; prefácio de Carlos
Byington. 1. ed. Rio de Janeiro: BestBolso, 2015. E-book. ISBN
978-85-7799-497-7.

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