Algumas histórias começam com grandes acontecimentos. Outras começam de um jeito muito mais simples: duas pessoas sentadas lado a lado, uma conversa, um cumprimento repetido todos os dias e uma amizade que vai surgindo quase sem que elas percebam.
Foi justamente essa simplicidade que encontrei em Heartstopper: Dois garotos, um encontro, primeiro volume da série de Alice Oseman. A história acompanha Charlie Spring e Nick Nelson, dois estudantes bastante diferentes que passam a conviver depois de serem colocados juntos na sala de tutoria.
Charlie já passou por uma experiência difícil na escola depois que descobriram que ele era gay. Nick, por outro lado, é um dos garotos populares, joga rúgbi e, pelo menos inicialmente, parece fazer parte de um universo completamente diferente do de Charlie.
Mas basta um “oi” para que essa distância comece a diminuir.
Uma amizade que nasce aos poucos
Uma das coisas interessantes em Heartstopper é justamente acompanhar a aproximação dos dois.
Charlie começa a gostar de Nick, embora acredite que não exista possibilidade de ser correspondido. Nick parece ser hétero, tem amigos que fazem comentários homofóbicos e, aos olhos de Charlie, apaixonar-se por ele provavelmente significa apenas criar expectativas que terminarão em frustração.
Só que Nick começa a procurar Charlie cada vez mais.
Quando descobre que ele é rápido, convida-o para jogar rúgbi. Os treinos fazem com que os dois passem mais tempo juntos, mas a amizade não fica restrita à escola. Eles trocam mensagens, visitam a casa um do outro e começam a ocupar um espaço cada vez maior na rotina um do outro. Há inclusive Nellie, a cachorrinha de Nick, que participa de alguns desses encontros e ajuda a tornar a aproximação dos dois ainda mais natural. O interessante é que não existe uma grande declaração capaz de mudar tudo de uma hora para outra. O relacionamento vai sendo construído nos pequenos momentos.
Charlie já sabe quem é. Nick ainda está descobrindo
Charlie e Nick estão em momentos muito diferentes. Charlie é assumidamente gay, mas isso não significa que sua vida esteja resolvida. Logo no início encontramos Charlie envolvido com Ben, um garoto que aceita beijá-lo escondido, mas não quer ser visto com ele e chega a tratá-lo de maneira bastante cruel.
A situação se torna ainda mais séria quando Ben ignora Charlie dizendo que não quer beijá-lo. É Nick quem aparece naquele momento e interfere. Essa parte ajuda a estabelecer uma diferença importante entre aquilo que Charlie vinha aceitando e a relação que começa a construir com Nick. Com Nick acontece outro processo.
À medida que percebe que seus sentimentos por Charlie talvez não sejam apenas de amizade, ele começa a questionar aquilo que sempre acreditou sobre si mesmo. Em determinado momento, chega a pesquisar na internet sobre sexualidade e faz aqueles testes que prometem responder se alguém é gay.
É uma cena simples e até um pouco engraçada, mas que representa muito bem a confusão do personagem: Nick quer encontrar uma resposta objetiva para algo que ainda está tentando compreender.
Quando a amizade muda
A festa de aniversário de Harry acaba colocando os dois diante daquilo que vinha crescendo entre eles. Charlie e Nick se afastam da festa e começam a conversar. Charlie pergunta se Nick beijaria alguém que não fosse uma garota. Depois de muita hesitação, os dois se beijam.
Só que o momento não resolve imediatamente a situação. Nick ainda está assustado com o que está sentindo e Charlie interpreta parte daquela reação como arrependimento. No dia seguinte, porém, Nick aparece na casa dele, debaixo de chuva, para conversar. É a partir daí que Heartstopper deixa de tratar apenas da possibilidade de Charlie gostar de Nick e passa também a acompanhar Nick tentando entender a própria sexualidade.
E gostei especialmente de a história não exigir que ele encontre uma definição imediata. Existe dúvida, pesquisa, medo e descoberta. Nick sabe que gosta de Charlie antes mesmo de conseguir explicar exatamente o que isso significa sobre si mesmo.
Nem todo mundo ao redor torna as coisas fáceis
A escola também ocupa um espaço importante na história. Tao, amigo de Charlie, desconfia bastante de Nick e tenta proteger Charlie de uma possível decepção. Ao mesmo tempo, alguns dos amigos de Nick representam justamente o ambiente do qual Charlie tem motivos para desconfiar.
Harry, principalmente, faz comentários homofóbicos e transforma Charlie em alvo de piadas.
Nick começa então a perceber coisas que antes talvez passassem despercebidas para ele. Aproximar-se de Charlie também significa olhar de outra maneira para o comportamento dos próprios amigos e decidir até que ponto está disposto a permanecer calado diante dele.
Isso faz com que a história não trate somente de romance. Ela também fala sobre amizade, pertencimento, preconceito e sobre a dificuldade de descobrir quem somos quando existe uma expectativa dos outros sobre quem deveríamos ser.
Uma história contada também pelos desenhos
Outro aspecto que chama atenção é a própria forma como Alice Oseman conta essa história. Como estamos diante de uma graphic novel, nem tudo precisa ser explicado em diálogos. Expressões, silêncios, mensagens no celular, folhas que aparecem ao redor dos personagens e pequenos detalhes dos desenhos ajudam a mostrar aquilo que Charlie e Nick ainda não conseguem dizer.
Há páginas em que poucas palavras são necessárias.
E isso combina muito bem com os dois protagonistas, porque boa parte deste primeiro volume é justamente sobre sentimentos que ainda estão sendo compreendidos.
Uma leitura sobre gostar de alguém — e descobrir a si mesmo
Heartstopper: Dois garotos, um encontro começa de maneira bastante simples: Charlie e Nick passam a sentar juntos.
A partir daí vêm o rúgbi, as mensagens, as visitas, os amigos, os primeiros sinais de ciúme, as dúvidas de Nick, os medos de Charlie e, finalmente, a descoberta de que talvez aquilo que existe entre os dois não seja apenas amizade.
Terminei este primeiro volume com a impressão de que Alice Oseman constrói a relação dos personagens principalmente através dos pequenos acontecimentos. Não é apenas o primeiro beijo que importa. São todas aquelas situações anteriores que fazem com que aquele beijo tenha significado quando finalmente acontece.
Para quem gosta de histórias sobre adolescência, amizade, primeiras descobertas e relacionamentos construídos aos poucos, Heartstopper é uma leitura que vale conhecer. E o fato de acompanharmos tudo através dos quadrinhos torna a leitura rápida, mas não necessariamente superficial. Há bastante coisa sendo dita justamente nos momentos em que os personagens não dizem nada.
E talvez essa seja uma das ideias mais interessantes deste primeiro volume: algumas vezes descobrimos o que sentimos por alguém antes mesmo de conseguirmos encontrar um nome para aquilo.
E você? Acredita que uma grande história de amor pode começar simplesmente com um “oi”?
OSEMAN, Alice. Heartstopper: dois garotos, um encontro. v. 1. Tradução de Guilherme Miranda. São Paulo: Seguinte, 2019.

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