Existem livros que conhecemos antes mesmo de lê-los. Algumas frases aparecem nas redes sociais, as ilustrações se tornam familiares e os personagens passam a fazer parte da cultura popular. O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry, é certamente um desses casos. Mas conhecer suas frases mais famosas é bem diferente de acompanhar a viagem completa daquele pequeno menino de cabelos dourados.
A história começa com um aviador perdido no deserto do Saara depois de uma pane em seu avião. Sozinho e com pouca água, ele precisa consertar a aeronave. É nesse cenário improvável que, certa manhã, escuta um pedido ainda mais inesperado: um menino quer que ele desenhe um carneiro.
A partir desse encontro, o aviador começa a conhecer a história do Pequeno Príncipe, seu pequeno planeta, sua rosa e os lugares pelos quais passou antes de chegar à Terra. E quanto mais avançamos, mais percebemos que essa viagem fala menos sobre planetas distantes e muito mais sobre a maneira como nós, adultos, aprendemos a enxergar o mundo.
Um elefante dentro de uma jiboia não é um chapéu. Antes mesmo de o Pequeno Príncipe aparecer, Saint-Exupéry já apresenta uma das ideias que acompanharão toda a história. Quando criança, o narrador desenhou uma jiboia que havia engolido um elefante. Ao mostrar o desenho aos adultos, perguntou se ele lhes causava medo.
Eles responderam que não havia motivo para ter medo de um chapéu. O menino então precisou desenhar o interior da jiboia para que os adultos finalmente compreendessem o que estavam vendo. Depois disso, foi aconselhado a abandonar os desenhos e dedicar-se a assuntos considerados mais sérios. O Pequeno Príncipe
É uma passagem divertida, mas que apresenta algo que reaparecerá muitas vezes: as crianças e os adultos não enxergam necessariamente as mesmas coisas.
Os adultos da história querem explicações, números e informações objetivas. O Pequeno Príncipe quer compreender aquilo que existe por trás delas.
De onde veio aquele menino? Aos poucos, o aviador descobre que seu novo amigo veio de um planeta minúsculo, pouco maior que uma casa. É o asteroide B 612. Ali, o Pequeno Príncipe cuidava de seus vulcões, arrancava os perigosos brotos de baobás e observava o pôr do sol simplesmente movendo sua cadeira alguns passos.
Em determinado dia, conta ter assistido ao pôr do sol 43 vezes. E então explica que, quando estamos muito tristes, gostamos de ver o sol se pôr. São esses pequenos comentários que tornam o personagem tão interessante. Ele pergunta sobre coisas aparentemente simples, mas suas perguntas frequentemente deixam os adultos sem respostas.
No pequeno planeta também existe alguém que mudará completamente sua história. Uma rosa.
Uma rosa complicada de amar. A rosa do Pequeno Príncipe é bonita, orgulhosa, vaidosa e bastante exigente.
Ele cuida dela. Protege-a do frio, coloca-a sob uma redoma e atende a seus pedidos. Mas também fica confuso com suas palavras e suas contradições.
Os dois gostam um do outro, embora nenhum deles pareça saber muito bem como lidar com isso. Quando decide partir, o Pequeno Príncipe deixa a rosa para trás. Só mais tarde consegue compreender melhor o que aconteceu entre eles. Ele reconhece que era jovem demais para saber amá-la e que deveria ter prestado mais atenção ao que ela fazia do que ao que dizia.
O Pequeno Príncipe, gostei especialmente desse aspecto porque a rosa não é apresentada como perfeita. Nem o Pequeno Príncipe é. Existe carinho, mas também orgulho, incompreensão e arrependimento. Às vezes, perceber o valor de alguém exige a distância necessária para compreender aquilo que não conseguimos enxergar enquanto estávamos perto.
Uma viagem pelo estranho mundo dos adultos. Depois de deixar seu planeta, o Pequeno Príncipe visita vários outros. E em cada um encontra um adulto vivendo praticamente sozinho dentro de sua própria obsessão. Há um rei que deseja mandar em tudo. Um vaidoso que só consegue ouvir elogios. Um bêbado que bebe para esquecer a vergonha que sente de beber. Um homem de negócios ocupado demais contando estrelas e dizendo que é dono delas.
Um acendedor de lampiões que continua cumprindo sua tarefa mesmo quando ela deixa de fazer sentido. E um geógrafo que escreve sobre mares, rios e montanhas, mas não conhece pessoalmente aquilo que registra. Os encontros são rápidos, mas começam a formar uma imagem bastante curiosa dos adultos.
Talvez o homem de negócios seja um dos exemplos mais interessantes. Ele acredita possuir as estrelas simplesmente porque foi o primeiro a pensar em possuí-las. O Pequeno Príncipe, porém, compara aquela ideia com sua própria vida: ele possui uma flor e vulcões porque cuida deles e lhes é útil. O homem de negócios não faz absolutamente nada pelas estrelas que diz possuir. O Pequeno Príncipe O Pequeno Príncipe, é uma diferença pequena, mas importante. Possuir alguma coisa e cuidar dela não são necessariamente a mesma coisa. Quando ele encontra milhares de rosas. Ao chegar à Terra, o Pequeno Príncipe vive uma descoberta bastante dolorosa. Ele encontra um jardim cheio de rosas. Até aquele momento, acreditava que sua rosa fosse única em todo o universo. De repente, descobre milhares praticamente iguais a ela. Isso o entristece.
Se sua rosa não era única, talvez aquilo que possuía em seu pequeno planeta não fosse tão especial quanto imaginava. Mas então aparece uma raposa.
E uma das partes mais conhecidas do livro começa justamente quando ela pede:
“Cativa-me.”
O que significa cativar?
O Pequeno Príncipe não entende aquela palavra. A raposa explica que cativar significa criar laços. Antes disso, ele é apenas um menino entre milhares de outros meninos para ela. E ela é apenas uma raposa entre milhares de outras raposas para ele. Mas, se criarem um vínculo, um se tornará único para o outro.
É depois dessa experiência que o Pequeno Príncipe finalmente consegue compreender sua rosa. As rosas do jardim podem ser parecidas com ela.
Mas ele regou aquela rosa. Protegeu aquela rosa. Ouviu suas reclamações e seus silêncios. Dedicou seu tempo a ela. É essa relação construída entre os dois que faz com que sua rosa seja diferente de todas as outras.
A raposa ensina então algumas das ideias que se tornariam mais conhecidas da obra: aquilo que realmente importa nem sempre pode ser percebido pelos olhos, e somos responsáveis pelos vínculos que criamos. Depois de acompanhar toda a história, essas frases deixam de parecer apenas bonitas. Passam a ter uma razão para existir.
Os adultos gostam muito de números.
Há outra passagem de que gostei bastante. O narrador observa que, quando contamos aos adultos sobre um novo amigo, eles dificilmente perguntam sobre sua voz, suas brincadeiras ou aquilo de que ele gosta. Querem saber a idade. Quantos irmãos possui. Quanto pesa. Quanto ganha seu pai. Somente depois desses números acreditam conhecer aquela pessoa.
O Pequeno Príncipe é uma crítica que atravessa boa parte do livro. Os adultos estão constantemente ocupados com aquilo que pode ser contado, medido, possuído ou classificado. Enquanto isso, algumas das coisas mais importantes escapam. Amizade não cabe em uma planilha. Saudade não tem peso.
O valor de uma rosa não pode ser calculado pelo preço de suas pétalas. E talvez crescer traga justamente o risco de começarmos a acreditar que apenas aquilo que pode ser medido merece nossa atenção.
A despedida no deserto
A relação entre o aviador e o Pequeno Príncipe também se transforma. Aquele encontro que começou com o pedido de um desenho cria outro vínculo. Os dois procuram água juntos, conversam e chegam a um poço no deserto. Mas o Pequeno Príncipe sabe que precisa voltar para sua rosa. É aí que a serpente, encontrada anteriormente na Terra, volta a ter importância na história.
A despedida é uma das partes mais delicadas do livro porque Saint-Exupéry não explica tudo de maneira objetiva. O corpo do Pequeno Príncipe é pesado demais para levá-lo de volta ao seu planeta, e a picada da serpente funciona como o caminho para esse retorno.
O aviador sofre com a separação. Mas recebe do amigo uma maneira diferente de olhar para as estrelas. Como não saberá exatamente em qual delas o Pequeno Príncipe estará, todas poderão lembrá-lo dele.
Aquilo que para outras pessoas será apenas um céu estrelado passará a carregar, para o aviador, uma lembrança particular. Mais uma vez, o vínculo transforma aquilo que enxergamos.
Afinal, é mesmo um livro infantil?
A própria edição traz uma reflexão interessante sobre essa pergunta. O Pequeno Príncipe pode ser lido por crianças, naturalmente. Há um menino viajando entre planetas, uma rosa que fala, uma raposa, uma serpente e desenhos feitos pelo próprio Saint-Exupéry. Mas reduzi-lo a um livro exclusivamente infantil parece deixar muita coisa de fora.
A nota desta edição chega a apresentá-lo como uma fábula ou parábola, observando que sua mensagem ligada à infância também se dirige aos adultos. O Pequeno Príncipe Depois de terminar a leitura, entendo perfeitamente essa interpretação. Talvez uma criança leia a aventura.
Um adulto pode encontrar nela perguntas sobre amor, amizade, solidão, poder, vaidade, trabalho, dinheiro, responsabilidade, perda e sobre aquilo que fomos deixando para trás enquanto crescíamos. E talvez o mesmo leitor encontre coisas diferentes ao retornar ao livro em momentos diferentes da vida.
Um pequeno livro sobre coisas muito grandes. É curioso perceber quantas ideias cabem em uma história aparentemente tão simples.
Um aviador cai no deserto. Um menino pede um carneiro. E, a partir daí, encontramos reis sem súditos, homens que contam estrelas, uma rosa difícil de compreender, uma raposa querendo criar laços e um pequeno príncipe tentando descobrir o que realmente torna alguma coisa importante.
Depois de terminar O Pequeno Príncipe, fiquei pensando que talvez uma das maiores qualidades do livro seja justamente nos devolver perguntas que a vida adulta foi ensinando a ignorar.
Por que queremos possuir tantas coisas?
Quanto tempo dedicamos àquilo que dizemos amar?
Estamos realmente conhecendo as pessoas ou apenas acumulando informações sobre elas?
E quantas vezes deixamos de enxergar alguma coisa simplesmente porque aprendemos que adultos não deveriam mais procurar elefantes dentro de jiboias?
Saint-Exupéry não escreve um manual dizendo como devemos viver.
Ele conta uma história. Mas, quando o Pequeno Príncipe finalmente volta para sua estrela, algumas perguntas ficam conosco.Talvez seja por isso que um livro tão pequeno continue encontrando leitores tantas décadas depois. Podemos crescer. Podemos nos tornar pessoas muito sérias. Podemos aprender a contar dinheiro, compromissos, quilômetros, horas e todas as outras coisas que os adultos gostam tanto de contar.
Só não deveríamos esquecer que nem tudo aquilo que realmente tem valor pode ser contado — ou visto com os olhos. E você? Se encontrasse hoje o Pequeno Príncipe, acha que ele enxergaria em você uma criança que cresceu ou uma daquelas “pessoas grandes” que ele encontrou pelo caminho?
SAINT-EXUPÉRY, Antoine de. O Pequeno Príncipe. 1. ed. Rio de Janeiro: Agir, 2015. 96 p. ISBN 978-8567097107.

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