Depois de indicar o primeiro volume de Heartstopper aqui no Única Leitura, continuei acompanhando a história de Charlie Spring e Nick Nelson em Minha pessoa favorita, segundo volume da série de Alice Oseman.
Se Dois garotos, um encontro mostrou o nascimento da amizade e aquele momento em que os sentimentos começam a ultrapassar a linha da amizade, agora encontramos os dois diante de uma questão diferente. Nick sabe que gosta de Charlie. O que ele ainda não sabe é exatamente o que essa descoberta significa sobre ele mesmo.
E é justamente a partir daí que este segundo volume desenvolve uma parte muito importante da história.
Nick não precisa encontrar todas as respostas de uma vez
O primeiro beijo entre Charlie e Nick trouxe uma certeza e muitas dúvidas. Nick percebe que aquilo que sente por Charlie é real, mas começa a questionar a própria sexualidade. Ele pesquisa na internet, lê sobre o assunto e tenta entender onde se encaixa.
A princípio, parece existir uma pressão para encontrar uma resposta simples: se ele gosta de Charlie, então isso significa que é gay?
Aos poucos, Nick percebe que a resposta não é tão simples assim. Ele continua sabendo que já sentiu atração por garotas e, ao mesmo tempo, não consegue negar o que sente por Charlie. É nesse processo que começa a considerar que talvez seja bissexual.
Achei interessante a maneira como o livro apresenta essa descoberta porque ela não acontece como uma revelação instantânea. Nick vai juntando peças, observando os próprios sentimentos e aprendendo inclusive palavras que podem ajudá-lo a compreender aquilo que está vivendo. E Charlie procura não pressioná-lo.
Namorar escondido parece mais fácil do que realmente é
Enquanto Nick tenta entender a própria sexualidade, os dois começam efetivamente a viver um relacionamento. Mas existe um problema: Nick ainda não está preparado para contar aos outros. Isso significa encontros escondidos, beijos quando ninguém está olhando e aquele cuidado constante para que os colegas não percebam o que existe entre eles.
Charlie conhece muito bem as consequências de ter sua sexualidade exposta sem estar preparado. Por isso, compreende o medo de Nick e deixa claro que ele deve contar quando se sentir pronto. Só que guardar um relacionamento em segredo também produz situações complicadas.
Quando os amigos começam a desconfiar, qualquer aproximação entre os dois parece precisar de uma explicação. E quanto mais importante Charlie se torna para Nick, mais difícil fica agir diante dos outros como se ele fosse apenas mais um amigo.
Os amigos também fazem parte dessa história
Neste volume, o grupo ao redor de Charlie ganha bastante espaço. Tao continua extremamente protetor e ainda não confia totalmente em Nick. Existe uma razão para isso: ele viu Charlie sofrer anteriormente e acredita que precisa impedir que o amigo passe por tudo aquilo novamente.
Ao mesmo tempo, conhecemos melhor Elle, Aled e Tara, além de Darcy, que passa a fazer parte desse círculo. Tara tem uma importância especial para Nick. Ele descobre que ela está namorando Darcy e consegue conversar com alguém que entende algumas das dúvidas que ele está enfrentando.
Essas relações tornam Heartstopper mais do que simplesmente a história de um casal. Existe um grupo de adolescentes tentando compreender amizade, namoro, identidade e pertencimento enquanto, naturalmente, também cometem erros uns com os outros.
E Tao acaba descobrindo da pior maneira que Charlie estava escondendo dele uma parte bastante importante da própria vida.
Nem todo mundo reage da mesma maneira
Se existe uma preocupação constante para Nick, é imaginar como as pessoas reagirão quando souberem sobre ele e Charlie. E o livro mostra justamente que essas reações podem ser muito diferentes.
Algumas pessoas recebem a notícia com naturalidade. Outras fazem perguntas inconvenientes. Há também quem transforme a sexualidade alheia em motivo para piadas e comentários ofensivos. Harry continua representando bem esse último grupo.
Em determinado momento, as provocações deixam de ser apenas algo que Nick tenta ignorar. Ele se irrita com os comentários homofóbicos e acaba entrando em uma briga. É interessante observar essa mudança porque Nick começa a olhar de maneira diferente para pessoas com quem convivia normalmente antes de conhecer Charlie. Certos comportamentos que talvez anteriormente não o atingissem diretamente agora ganham outro significado. Ao mesmo tempo, Charlie não quer que Nick precise brigar para defendê-lo.
Mais uma vez, a história evita transformar tudo em uma solução perfeita.
E então chega o momento de contar para alguém
Durante boa parte do volume, Nick tenta descobrir quando estará preparado para dizer em voz alta aquilo que já começou a compreender sozinho. E a primeira pessoa da família para quem decide contar é sua mãe. A conversa entre os dois é um dos momentos mais importantes deste volume.
Nick conta que Charlie é seu namorado e explica que gosta de garotos e garotas. A reação da mãe é acolhedora, mas há um detalhe que torna a cena especialmente interessante: ela admite que não sabia que pessoas bissexuais existiam.
Nick precisa explicar. É uma conversa simples, sem um grande discurso, e talvez justamente por isso funcione tão bem dentro da história. Depois de tantas páginas acompanhando o medo de Nick sobre o que poderia acontecer, finalmente vemos o personagem conseguir dividir essa parte de si com alguém da família.
E a resposta que recebe mostra que revelar quem somos nem sempre precisa terminar da maneira que nossos medos imaginam.
Uma continuação sobre relacionamento, identidade e confiança
Heartstopper: Minha pessoa favorita mantém a leveza visual do primeiro volume, mas amplia bastante aquilo que está acontecendo com os personagens. Charlie e Nick já sabem que gostam um do outro. Agora precisam descobrir como viver esse relacionamento.
Para Nick, isso significa também compreender a própria bissexualidade e decidir quando e para quem deseja contar. Para Charlie, significa aprender a respeitar o tempo de Nick sem ignorar os próprios sentimentos. E, para os dois, significa perceber que um relacionamento não existe completamente separado dos amigos, da escola e da família.
Depois de terminar este segundo volume, uma das coisas que mais me chamou a atenção foi justamente a maneira como Alice Oseman trata a descoberta de Nick sem transformar sua sexualidade em uma resposta que precisa aparecer imediatamente. Ele pode ter certeza de que gosta de Charlie enquanto ainda está descobrindo outras coisas sobre si mesmo.
E talvez seja por isso que o título Minha pessoa favorita combine tanto com esta parte da história. Antes mesmo de Nick conseguir explicar perfeitamente quem é, existe uma coisa sobre a qual ele parece não ter muitas dúvidas: Charlie se tornou alguém muito importante para ele.
Para quem gostou do primeiro volume, esta continuação permite conhecer melhor não apenas Nick e Charlie, mas também as pessoas que cercam os dois. A história continua romântica e leve em muitos momentos, mas começa a abordar com mais espaço questões como bissexualidade, homofobia, assumir-se, amizade e aceitação familiar.
No fim, talvez Heartstopper esteja mostrando que descobrir quem somos não significa encontrar todas as respostas de uma vez. Algumas delas aparecem aos poucos — e ter alguém ao nosso lado durante esse caminho pode fazer bastante diferença.
E você? Acha que precisamos entender completamente quem somos antes de compartilhar essa parte de nós com alguém?
OSEMAN, Alice. Heartstopper: minha pessoa favorita. v. 2. Tradução de Guilherme Miranda. São Paulo: Seguinte, 2019.

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